LUANDA SOB TENSÃO: VOZES DOS BAIRROS REVELAM MEDO CRESCENTE DA DELINQUÊNCIA

Nos últimos tempos, a delinquência nos bairros da cidade de Luanda tem sido um dos temas mais debatidos nas ruas, nos transportes públicos e em diversos espaços de convívio. Cada cidadão traz consigo um relato diferente, muitos deles cada vez mais chocantes o que tem aumentado a preocupação geral da população.

Imagem: Ponto de Situação

Diante deste cenário, a nossa equipa saiu às ruas para ouvir, na primeira pessoa, a opinião de moradores de vários pontos da capital.

Entre os testemunhos recolhidos, destaca-se o de Marlene Francisco, residente no bairro Danjarex, numa zona conhecida por muitos como “Parte Braço”.

Segundo a moradora, a realidade vivida no bairro é “sinistra”, marcada por constantes casos de delinquência, confrontos entre grupos e assaltos frequentes, sobretudo a partir das 22h00.
“As pessoas já não conseguem sair muito cedo de casa, nem regressar tarde com segurança”, afirmou.

Marlene relatou ainda que, mesmo durante o dia, ocorrem assaltos, especialmente contra as vendedoras de peixe (zungueiras), que são frequentemente obrigadas a pagar entre 200 e 300 kwanzas a grupos de jovens.
“Se não pagarem, ficam sem o peixe. É uma situação muito complicada”, lamentou.

Apesar da existência de uma esquadra na zona, a cidadã considera que a actuação policial ainda é insuficiente. Na sua opinião, a presença das forças da ordem concentra-se mais nas vias principais, deixando os bairros desprotegidos.
“Os polícias deveriam actuar mais dentro dos bairros e não apenas nas estradas. Quem vive longe das vias principais fica sem protecção”, criticou.

A moradora defende uma actuação mais activa das autoridades:
“Se os marginais virem um polícia presente no bairro, não terão coragem para agir. Cada agente deve exercer bem a sua função para ajudar a reduzir a criminalidade.”

Já João Francisco, residente no bairro Cantintom, afirma que a delinquência é um dos maiores problemas enfrentados nas zonas periféricas. Segundo ele, essas áreas concentram um grande número de jovens sem orientação.
“É lá onde encontramos uma juventude sem direcção, que precisa de mais atenção das autoridades e também da sociedade, especialmente dos pais”, destacou.

Para João, é fundamental reforçar campanhas sociais nos bairros, com o objectivo de afastar os jovens da criminalidade e oferecer alternativas positivas.

Por sua vez, Estevão Filipe, morador do Golf 2, considera que a responsabilidade pela situação é colectiva.
“Se há um culpado em tudo isso, somos todos nós, porque muitas vezes protegemos e defendemos os delinquentes”, afirmou.

Outro cidadão ouvido pela equipa, manifestou preocupação com a aplicação da lei em Angola, defendendo maior rigor na punição dos criminosos.

“Se existe uma lei que determina que quem rouba deve cumprir pena de dois, três ou quatro anos de prisão, como é possível que, depois de alguns dias, o indivíduo esteja solto e volte a cometer os mesmos crimes, dizendo até que a cadeia é a sua casa?”, questionou.

Na sua opinião, para reduzir a delinquência, também deveriam ser aplicadas medidas mais rígidas, como a detenção de cidadãos encontrados a consumir bebidas alcoólicas em horários normais de trabalho, passando pelo menos uma noite na prisão como forma de advertência.

Vandelson José, residente no bairro Calemba 2, contou que, devido ao trabalho, passa pouco tempo no bairro, mas já foi vítima de vários assaltos, sobretudo no período nocturno.

Ainda assim, reconhece que a polícia local tem feito o seu trabalho, com algumas operações bem-sucedidas, embora nem sempre com os resultados desejados. Segundo ele, trata-se de uma zona que raramente conta com uma esquadra móvel.

Vandelson relatou ainda um episódio marcante: foi assaltado em plena luz do dia, num Domingo por volta das 11h00, próximo da sua residência, por um jovem armado com uma arma semelhante às utilizadas por seguranças.
“Fui obrigado a entrar em confronto com o indivíduo, mas não tive sucesso e acabaram por levar o meu telemóvel. É uma situação que não recomendo a ninguém”, contou.

Na sua opinião, reduzir a delinquência será um grande desafio.
“Hoje em dia, todos querem dinheiro e uma vida melhor, mesmo aqueles que ganham pouco acabam por se envolver nesses actos. Conheço casos de operativos que, por receberem mal, chegam a emprestar armas a criminosos. Há até filhos de polícias que usam ou emprestam as armas dos pais para cometer crimes. É muito complicado”, concluiu.

Os relatos evidenciam um cenário preocupante, que exige acções concretas e conjuntas entre as autoridades e a sociedade civil, com vista a garantir maior segurança e melhor qualidade de vida nos bairros de Luanda.

Diante deste cenário alarmante, fica evidente que a delinquência nos bairros de Luanda já não pode ser encarada como um problema isolado, mas sim como um desafio urgente que exige respostas firmes e coordenadas. Entre o medo dos moradores, a fragilidade de algumas acções de controlo e a necessidade de maior responsabilidade social, cresce o apelo por mudanças concretas.

Mais do que reforçar a presença policial, torna-se essencial investir na educação, na inclusão social e na criação de oportunidades para a juventude, de forma a atacar as causas profundas da criminalidade. Enquanto isso não acontecer, muitos cidadãos continuarão a viver entre a incerteza e o receio, numa cidade onde a segurança ainda está longe de ser uma realidade para todos.