CAZENGA:ENTRE A SÉTIMA E A OITAVA, O MEDO ATRAVESSA A RUA ANTES DAS PESSOAS

A Sétima e a Oitava avenidas transformam-se, segundo moradores, num corredor de incertezas sobretudo entre as 18h e as 6h00. É nesse intervalo que a rua parece mudar de dono.

Imagem: Angola 24Horas

No coração do município do Cazenga, duas artérias ganharam um nome que não vem nos mapas, mas ecoa nas conversas sussurradas ao cair da tarde: “túneis da morte”. 

A equipa do Ponto de Situação percorreu travessas e becos indicados como zonas de alto risco: da Paragem da Mabor à Rua da Luz, até à estrada que liga a Quinta Avenida ao Hospital Geral do Cazenga. O cenário é de portas semicerradas, olhares atentos e passos apressados. Há silêncio, mas não é paz; é prudência.

“É um acto heroico, vocês passarem aqui com esse equipamento e não serem roubados. Talvez por ser domingo”, atira Tio André Kiendula Kassoma, com ironia que não chega a ser riso. No Bairro Abusante, explica, circular “à vontade” exige sobrenome conhecido ou farda azul. “Se não tens família aqui, muito cuidado. A nossa vida é como se vivêssemos numa ilha. Tudo cercado. Pior quando há luta entre grupos.”

A metáfora da ilha repete-se em diferentes vozes. Ilhas de betão, onde cada quarteirão tem as suas regras não escritas. Dona São Katraio, 56 anos, há mais de três décadas no Abusante, fala com a dor de quem viu crescer os protagonistas da desordem. “Os meliantes são os nossos filhos e netos. Já não querem estudar, nem trabalhar. Fumar e beber é o que mais fazem.” E deixa um apelo directo a quem vende bebidas alcoólicas e liamba na zona: “Também têm responsabilidade.”

Ana Paula, 31 anos, vai mais longe e aponta para dentro das casas. “Como é possível pais que sabem que os filhos estão a colocar a vida em risco ainda os esconderem quando há correcção?” A denúncia não é apenas policial, é social, é um pedido de ruptura com a cultura do encobrimento.

Números que não cabem no medo

Moradores falam em pelo menos uma dúzia de assaltos por dia apenas na Sétima Avenida, entre as 8h00 e as 15h00. À noite, dizem, o cenário agrava-se. Há relatos de mais de oito mil ocorrências acumuladas, um número que circula de boca em boca como estatística informal de um bairro que sente que grita sozinho.

Cecília Agostinho sublinha o drama dos mototaxistas, presença constante na mobilidade urbana de Luanda.

“Aqui assaltam mais os mototaxistas. Muitos já viram os seus pertences roubados. Um foi esfaqueado há dias. Levaram-lhe a motorizada e bateram-lhe.” A rua, que devia ser sustento, tornou-se risco calculado. Trabalhar é uma roleta.

Doroteia, estudante de 22 anos, aponta o mercado Augusto Gangula como outro ponto sensível. “Não importa se vais visitar familiares. Se não és morador, cuidado.”

A interlocutora, triste com o cenário que observa regularmente, avançou que, a juventude que devia circular com livros debaixo do braço anda com o medo às costas.

Uma das vítimas, que prefere não se identificar, recorda um episodio vivido a semana passada: “fui assaltada com o mototaxista. Levaram-me a pasta e o telefone. A ele, a motorizada e o dinheiro.” A frase sai seca, como quem já não espera justiça imediata, apenas sobrevivência.

Entre a ausência e a esperança

Os moradores clamam pela intervenção da Polícia Nacional de Angola. Querem patrulhamento visível, presença constante, inteligência preventiva, mas também reconhecem que a solução não se esgota na repressão. Falam de emprego, de ocupação juvenil, de iluminação pública, de requalificação urbana.

César Celestino é mais uma voz nesse coro aflito. Lamenta, com um cansaço que já não se esconde, a forma como tem sido a sua saída diária de casa rumo ao local de serviço. “Não tem sido fácil”, resume, numa frase curta, mas carregada de peso.

As noites, sobretudo no troço que liga a Sétima à Oitava, tornaram-se palco de confrontos entre grupos que disputam a soberania do território. Uma guerra invisível para quem passa de carro com os vidros fechados, mas brutal para quem vive ali. César diz que já perdeu a conta aos episódios de violência. “São jovens e adolescentes que perderam as suas vidas”, afirma, num tom que mistura revolta e impotência.

O drama, segundo descreve, vai além dos assaltos. É uma fractura social que dói mais fundo. “É lamentável quando olhas para adolescentes que trocaram a formação pelo cigarro, as igrejas pelos gangs. É complicado quando olhamos para o nosso bairro”, desabafa, com lágrimas nos olhos. “A juventude que devia estar a disputar vagas na universidade, mas disputa esquinas. Que devia ocupar bancos de escola, mas ocupa territórios riscados a medo”, lamentou, na esperança de ver um quadro diferente do que constacta.

“Nós aqui estamos mal, fomos esquecidos e continuaremos a ser, porque na verdade, os governantes deste município, criaram bairros de filhos, e de enteados’’, disse Joana Pulonha, de 45 anos, que reside na área há 22 anos .

Aqui no bairro no Gangula existe somente uma escola primária e várias  comparticipadas, com efeito os populares reclamam a construção de várias escolas públicas para reduzir a desistência daqueles que não têm meios.

“As propinas dessas escolas comparticipadas são muito caras, e a maior parte dos populares não consegue custear a formação dos seus filhos, porque vivemos somente de agricultura, você que tem uma lavra, achas que consegues pagar a propina no preço de 2 mil kwanzas, se você tem família para dar assistência?’’, perguntou o ancião.

Já o jovem Carlos, de 22 anos,  professor de uma das escolas comparticipadas da zona diz que o bairro está muito esquecido, por quem de direito.

“A vida aqui é difícil, nós estamos a pedir que os dirigentes deste município nos dão mais atenção, e não entendemos como eles trabalham, não há boas escolas, as vias estão mal, não há bons centros de saúde hospitalar, vamos ir aonde assim?’’, indagou.

A fonte recorda que, dentro do mercado do Gangula, havia sido construído uma agência do banco BPC, que depois de uma semana foi vandalizada pelos meliantes.

 No meio deste cenário, moradores pedem presença efectiva da Polícia Nacional e políticas públicas que devolvam horizontes à juventude, porque, no fundo, o que está em causa não é apenas a segurança de uma avenida, é o futuro de uma geração inteira.

A Sétima e a Oitava não são apenas avenidas, são vistas como termómetro social.

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