JORNALISMO EM ANGOLA: DEBATE EXPÕE FRAGILIDADES, CENSURA E ABANDONO DAS COMUNIDADES

Os participantes do debate promovido pelo Fórum de Mulheres Jornalistas para a Igualdade no Género denunciaram práticas de cobertura tendenciosa no jornalismo angolano, a falta de profundidade na análise dos factos e o distanciamento entre os media e as reais necessidades das comunidades.

Imagem: DR Ponto de Situação

O encontro, que teve lugar esta quarta-feira, 22 de Abril, no auditório das Irmãs Paulinas, abordou o tema “O contexto das comunidades e o respeito pelos direitos humanos” e contou com a participação de jornalistas e especialistas que não pouparam críticas ao estado actual da comunicação social no país.

O jornalista Cândido Teixeira afirmou, sem rodeios, que em Angola predomina um “jornalismo administrativo”, centrado essencialmente na cobertura de actividades governamentais, ministeriais e judiciais, deixando de lado a análise crítica e o aprofundamento dos fenómenos sociais.

Na sua perspectiva, o jornalismo deve permitir que os cidadãos compreendam os factos com clareza, de forma a tomarem decisões conscientes, e não induzi-los a seguir determinadas posições sem questionamento. Defendeu ainda que um jornalismo de qualidade tem o dever de explicar os fenómenos e contribuir para a formação de uma sociedade crítica e informada.

Cândido Teixeira criticou também a falta de debates sérios e equilibrados nos órgãos públicos, apontando que muitos actores políticos evitam participar em espaços onde não há controlo editorial, preferindo ambientes onde se sentem mais confortáveis, o que levanta preocupações sobre censura e pluralidade de opiniões.

Por outro lado, destacou que actualmente muitas pautas jornalísticas são influenciadas pelas redes sociais, nomeadamente o Facebook, o que, segundo ele, compromete a profundidade e a responsabilidade na produção de conteúdos.

Já o jurista Guilherme Neves chamou atenção para a má gestão dos recursos naturais em Angola, sublinhando que, apesar da riqueza existente, muitas comunidades continuam a viver em condições precárias.

Guilherme Neves referiu que as populações que residem nas zonas de exploração são as que mais sofrem com impactos ambientais e sociais, sem beneficiarem devidamente desses recursos.

O jurista criticou ainda a falta de transparência nos contratos e levantou preocupações sobre conflitos de interesse entre dirigentes públicos e o sector privado, questionando até que ponto essas situações prejudicam a defesa dos direitos das comunidades.

Por sua vez, a coordenadora do Fórum de Mulheres Jornalistas para a Igualdade no Género Milena da Costa, destacou o papel fundamental do jornalista como mediador entre as comunidades e a sociedade.

 Salientou que, num mundo em constante transformação, os profissionais da comunicação devem adoptar uma abordagem responsável, sensível e inclusiva, sobretudo quando lidam com comunidades afectadas pela exploração de recursos naturais.

Milena da Costa reforçou ainda a importância de reconhecer a diversidade, a dignidade e as especificidades dessas comunidades, defendendo um jornalismo que dê visibilidade às suas realidades e contribua para a promoção dos direitos humanos.

O debate terminou com um apelo à reflexão crítica por parte dos jornalistas, sublinhando a necessidade urgente de um jornalismo mais independente, analítico e comprometido com o interesse público. 

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