FUNCIONÁRIOS DO TIKTOK ALERTAM PARA RISCOS DA APP NA SAÚDE DOS JOVENS
Funcionários actuais e antigos do TikTok manifestaram preocupações internas sobre como o algoritmo da aplicação pode prejudicar a saúde mental dos utilizadores mais jovens.

As declarações surgem num vídeo agora tornado público, apresentado como prova num processo judicial contra a empresa, na Carolina do Norte, Estados Unidos da América.
Segundo a investigação, os testemunhos contrastam com as declarações públicas do TikTok, que tem repetidamente garantido que a sua plataforma é segura para jovens.
O procurador-geral da Carolina do Norte, Josh Stein, moveu um processo contra a empresa no ano passado, juntamente com outros procuradores estaduais, acusando a aplicação de práticas comerciais injustas e enganosas. A acusação sustenta que o TikTok foi projectado para ser “altamente viciante para menores”, enganando pais e filhos sobre os riscos da utilização.
Esta semana, o juiz Adam Conrad, da Corte Superior da Carolina do Norte, decidiu que tanto a denúncia como o vídeo obtido durante a investigação não deveriam permanecer em sigilo, negando ainda o pedido do TikTok para arquivar o processo.
O vídeo divulgado compila excertos de reuniões internas, revelando que alguns funcionários levantaram questões sobre a segurança do aplicativo para adolescentes. Não está claro, porém, em que datas as reuniões decorreram.
“Infelizmente, algumas das coisas que as pessoas acham interessantes nem sempre são as mais saudáveis”, afirmou Nicholas Chng, ex-funcionário da área de detecção de riscos do TikTok, antes de abandonar a empresa em 2024.
“De certa forma, incentivamos que alguns desses conteúdos sejam publicados, pela forma como a plataforma é projectada. E isso preocupa-me”, declarou.
Também Brett Peters, actual chefe global de defesa e reputação de criadores do TikTok, é visto no vídeo a referir-se aos “objectivos ambiciosos de fazer as pessoas permanecerem mais tempo no aplicativo”.
Segundo Brett “literalmente, é por isso que estamos todos aqui, para diversificar o ecossistema de conteúdo, para que nunca queiras sair do TikTok”.
Embora discussões internas sobre segurança sejam comuns nas grandes tecnológicas, o actual procurador-geral da Carolina do Norte, Jeff Jackson, defendeu que o vídeo reforça as alegações do Estado.
“Estes vídeos provam o que argumentámos em tribunal: as empresas de redes sociais mantêm as crianças viciadas para maximizar lucros, mesmo à custa da sua saúde”, afirmou em declarações à CNN.
Nos últimos anos, o TikTok implementou várias medidas de segurança e controlo parental, como definições de privacidade automáticas, desactivação de notificações nocturnas e, mais recentemente, um recurso de “meditação guiada” destinado a reduzir o tempo de utilização.
Ainda assim, segundo o processo, as próprias declarações de funcionários coincidem com as alegações de que o TikTok não informa claramente jovens e pais sobre os danos do tempo excessivo de ecrã, que interfere no sono, no rendimento escolar ou laboral e nas relações pessoais.
O vídeo inclui ainda o testemunho de Alexandra Evans, ex-responsável pela política de segurança do TikTok na Europa, que deixou a empresa em 2022. Para ela, “o TikTok tem o uso compulsivo incorporado. As crianças assistem porque o algoritmo é muito eficaz. Não é que se tenha tentado criar algo nocivo, mas precisamos de perceber que isso rouba oportunidades como dormir, comer, movimentar-se e até olhar alguém nos olhos.”
“O que me tira o sono é saber que o algoritmo direcciona conteúdo com base no que pensa que interessa ao utilizador. Preocupa-me sobretudo o impacto em jovens que procuram temas ligados à saúde mental”, acrescentou Ashlen Sepulveda, ex-funcionária da área de confiança e segurança até 2021.
O processo em curso pede ao tribunal a aplicação de sanções financeiras à empresa e a imposição de uma ordem judicial que impeça o TikTok de manter práticas consideradas injustas ou enganosas.
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