A CRÓNICA QUE CONTEMPLA O FUMO DO ACTIVO NA KIANDA

Num belo dia, decidi caminhar por vários pontos da Kianda, entre ruas de asfalto e trilhos de terra batida. Levava comigo uma companhia invulgar: a própria crónica, que, atenta e minuciosa, observava cada passo meu.

Passei por zonas onde as viaturas não chegam, onde o sol entra com esforço, onde a circulação se torna árdua e as cautelas se multiplicam, porque até da sombra muitos desconfiam.

Caminhei em horas distintas, quando o sol dava o seu bom dia e quando, cansado, se despedia. Tive até o ensejo de cruzar com a lua, que se apresentava vestida de noiva.

Atravessei a marginal, desci à Ilha de Luanda, percorri o 1.º de Maio, subi a São Paulo, parei no Largo das Heroínas. Não perdi a oportunidade de visitar os Bitas, os Jacarés (vizinhos do Canhanga). Recebi e transmiti calor humano no bairro Antonov-57. No Morro, não encontrei os veados que esperava, mas vi outras paisagens. Passei ainda por subzonas, pelos Zangos e por tantas centralidades que alimentam o olhar com o seu mosaico de beleza e contradição.

Em  todos estes lugares, uma certeza se impôs: os activos e os passivos cruzam-se regularmente.

A minha companheira de viagem,  a crónica,  apontava-me, com tristeza, para a realidade de muitos adolescentes e jovens que se perdem no consumo de substâncias nocivas.

Fumadores activos e passivos, intoxicam-se mutuamente.

É cada vez mais visível, menores de idade fumam às claras e, quando alguém lhes chama a atenção, revoltam-se, sem medir o peso das consequências que o cigarro pode trazer para a vida. Pior, muitos não têm sequer as refeições garantidas, mas encontram sempre maneira de alimentar o vício.

Quem observa de perto percebe o perigo:  para sustentar o hábito, uns cometem acções ilícitas e, muitas vezes, a transição do simples cigarro para substâncias psicoactivas mais agressivas torna-se inevitável, com impactos devastadores no sistema nervoso central.

A crónica, como que sussurrando, lembrou-me ainda de outros riscos: a gengiva inflamada, o surgimento de cáries, as papilas gustativas alteradas, o perigo do cancro da boca.

Por um instante, calou-se e  eu temi: será que, a passiva, já tinha sofrido no próprio corpo os efeitos? Será necessário levá-la a uma unidade sanitária? Mas logo retomou a palavra, mais grave: alertou para o fardo maior-os pulmões. O cigarro reduz-lhes a elasticidade, corrói-lhes a funcionalidade, abre caminho ao cancro que ceifa vidas sem piedade.

Percebi então que a nossa conversa era mais do que um desabafo, era uma aula dura, que não tive a oportunidade de ter acesso ao longos dos anos que sentei nas carteiras.

O cigarro é factor de risco para derrames cerebrais. A nicotina irrita a parede do estômago, eleva a pressão arterial, acelera o coração e multiplica a probabilidade de um enfarte.

Afinal, a situação é mais grave do que eu supunha e, por isso, é urgente pensar nestas consequências. Ainda há tempo para reverter o quadro, com vontade própria, apoio de familiares e amigos, e acompanhamento de especialistas.

Parar de fumar traz benefícios imediatos e duradouros, pois,  respira-se melhor, a circulação renova-se, o risco de doenças diminui, a energia e a disposição regressam.

Não é uma travessia fácil, mas é uma libertação necessária. Abandonar o tabaco é cortar a linha que prende o corpo às suas próprias cinzas.

Tome nota, enquanto eu regresso para o meu bairro, com a crónica ao lado!

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