COMUNICAÇÃO SOCIAL ONLINE E OS SEUS CAMINHOS PARA O MUNDO
O especialista em Comunicação e Marketing, Sebastião Jorge, afirma que a mídia digital em Angola ainda dá os seus primeiros passos e aconselha os jornalistas a apostarem na capacitação contínua, face aos múltiplos desafios que a profissão impõe.

Em declarações ao Ponto de Situação, o também docente universitário e fotógrafo institucional sublinhou a necessidade de se expandirem os pontos de acesso à internet no país, permitindo que a população em geral possa acompanhar o trabalho desenvolvido pelos órgãos de comunicação social online.
Leal Mundunde (LM): No país existem vários cidadãos, com dificuldades em entender a essência da Comunicação Social Online. Como especialista gostaríamos que conceitualizasse a temática.
Sebastião Jorge (SJ): A Comunicação Social Online, é um mecanismo de informar, entreter e educar por meio dos canais digitais. Estamos a falar de plataformas, sites, mídias sociais, como o Facebook, linkedIn, Youtube entre outras. Este mecanismo de estarmos a informar, educar e entreter via online, é o que chamamos de Comunicação Social Online.
Ou seja, é utilização de plataformas digitais para transmitir informações, mensagens e ideias a um público amplo, geralmente com o objectivo de influenciar opiniões, promover causas, gerar debates ou fornecer entretenimento.
LM: Como caracteriza a mídia digital no país?
SJ: Quanto a questão do digital em Angola, estamos a dar os primeiros passos, ou seja, estamos a engatinhar, porque ainda não temos aquela abrangência da internet no nosso país.
Há quem pense que, pelo facto de já existir um número considerável de utilizadores de plataformas de mídias sociais em Luanda, essa realidade se estende a todo o país, mas não é verdade. Falar de Angola não é limitar-se a Luanda.
LM: Perante o cenário traçado, de que forma os órgãos de Comunicação Social Online podem ultrapassar estas dificuldades? Que estratégias podem adoptar para melhor lidar com esta realidade?
SJ: É uma questão bem interessante. Não podemos nos limitar com aquilo que temos em falta, é necessário que os meios de comunicação providenciem materiais (os equipamentos necessários) para a produção de conteúdos digital, desde o telefone, computador ou as câmaras e além disso, capacitar os Recursos Humanos.
Para que se faça bem a comunicação social no digital, é necessário que haja pessoas que entendam realmente as mídias sociais, à cada plataforma como é que podem aproveitar para poder disseminar a informação, mas estas mesmas instituições também têm que dar aos funcionários a possibilidade de ter acesso a internet (pode não ser aquele que é provido aos pontos de acesso livre, temos das operadoras moveis). É necessário que haja internet, materiais e capacitação dos profissionais que vão integrar esta área.
LM: Sabemos que tem ministrado formações no domínio da gestão de mídias sociais, entre outras áreas. Tem sentido uma participação activa por parte dos profissionais do sector da Comunicação Social?
SJ: Hoje já tem havido demanda, porque aos poucos as instituições estão a dar conta que é necessário entrar para o digital, não somente devem estar no tradicional, mas a presença no digital é imprescindível, porque estamos na presença das massas.
Onde estão as pessoas que queremos alcançar? Como estão a gerir o seu tempo? Actualmente poucos tiram tempo para ver televisão, assistir ao noticiário ou estarem atrelados às informações do país quanto às notícias além-fronteiras, a partir da televisão. É muito mais pelas mídias sociais. Logo, as instituições estão a olhar neste factor como algo que é bom e podem aproveitar, por isso, estão apostar na capacitação dos seus profissionais para o domínio das mídias sociais para poderem executar as tarefas dentro do mundo digital.
LM: Tendo em conta que existem órgãos de Comunicação Social que operam exclusivamente no digital, considera que, em Angola, estes podem ser vistos como uma alternativa viável à média tradicional?
SJ: Não. Temos alguma explicação ou conceito destorcido daqueles que pensam que estar somente no digital é o certo ou estar somente no tradicional é o ideal. Eu tenho o seguinte pensamento: Hoje o digital tem mais público consumidor, mas o tradicional tem mais credibilidade, porque no digital infelizmente qualquer um é fazedor de opinião, é jornalista, basta eu ter o meu telemóvel e uma conta no Facebook e se entender de designer, crio as informações que eu quiser, vou disseminando nas mídias sociais e cada um faz o que quiser, mas o tradicional até agora ainda tem mais rigor.
Não é que não haja fake news no tradicional, mas a quantidade de fake news é menor com relação no digital, porque a liberdade no digital agora está em libertinagem (aquilo que me passar na cabeça, num momento ou outro decido criar uma notícia sobre o caríssimo), coisa que na comunicação social tradicional raramente se vê.
Qualquer pessoa pode criar uma conta com uma imagem que não tem nada a ver consigo e começar a disseminar informações. Quando alguém tentar procurar por ela, será difícil encontrar.
A iniciativa é de que todo indivíduo que disseminar fake news e for apanhado será punido com uma sentença de até 10 anos de prisão, penso a ideia ser plausível, embora que haverá ainda muitos desafios. Isto é bom, porque vai fazer com que alguns pensem duas vezes antes de divulgar uma informação irreal.
Penso ser necessário que haja literacia digital, porque temos que estar dotados de conhecimentos do universo digital, temos que ler, escrever também sobre as questões digitais e, é sobre esta escrita que poderemos preparar os indivíduos para saberem como poder medir por exemplo uma informação antes de partilhar.
É necessário que haja o ABC da tecnologia, para todos e não para um grupo específico, principalmente na academia. As escolas do ensino primário, as universidades e em todo o sector de ensino tem de ter um ponto que se fale sobre literacia digital, porque estando preparados sobre o funcionamento da tecnologia, as pessoas terão mais facilidade em identificar coisas que não condizem com a verdade.
LM: Olhando para a Comunicação Social e os seus caminhos para o mundo, que caminhos descreve? Em que direcção acredita que esta deve seguir, especialmente no contexto angolano?
SJ: Caminhos desafiadores, pois hoje há uma vasta quantidade de informação, mas, por vezes, a sua qualidade não se evidencia, uma vez que o que é divulgado muitas vezes não corresponde às necessidades da população.
O grande desafio é: termos muita informação, mas a relevância dessas informações não se reflecte em lado algum. Apesar de que, o que é relevante, é um conceito relativo, um em relação ao outro, mas os meios que se comprometem a informar, educar e entreter poderiam olhar para o resgate dos valores morais — coisas que realmente ajudam a sociedade a crescer, em vez de simplesmente divulgarem aquilo que viraliza.Há este dilema: a informação que educa versus a informação que viraliza. Por vezes, estamos mais interessados naquilo que viraliza do que naquilo que realmente ajuda a sociedade a desenvolver-se.
LM: Por intermédio da mídia digital, os cidadãos de outros países têm a oportunidade de conhecer Angola. A presença do país nas plataformas online tem sido eficaz na promoção da sua identidade e potencial?
SJ: Este é um dos pontos positivos do digital, porque todos os continentes podem ver o que Angola faz, o que Angola tem e como está sendo o desenvolvimento, o turismo (os pontos que podem ser visitados no país), a questão da gastronomia e outros.
A estes tipos de criadores de conteúdos, a estes meios que se comprometem em divulgar conteúdos deste género são aqueles que realmente estão a ajudar a sociedade a crescer. Quanto aqueles que simplesmente disseminam conteúdos que viralizam não importando se ajuda ou não, estes é que estão a dificultar aquilo que seria o bom caminho da Comunicação Social no digital.
LM: Com base na sua observação, considera que Angola está a seguir um bom caminho no que toca à imagem que os órgãos de Comunicação Social projectam para o mundo?
SJ: Os meios de Comunicação Social tanto tradicionais, quanto digital, tem aqueles que divulgam um lado do país e tem outros que divulgam o outro lado. Existe aqueles que divulgam o que está em falta e os que divulgam o que já se tem. Pode-se ter numa balança de 50 por 50 e os dois lados são importantes.
LM: Como académico, gostaríamos que olhasse para o capítulo da formação dos quadros do sector…
SJ: Nas nossas instituições superiores, institutos médios e outras, principalmente no ensino superior, é muito comum encontrarmos docentes mais idosos a leccionar. Sou da opinião de que é necessário modernizarmos. Se não vamos substituir os quadros, teremos que capacitar os professores, pois há alguns que continuam a ter um conceito arcaico que repetem há anos (...). É fundamental que haja esta modernização, pois estamos numa era em que o digital cresce a uma velocidade vertiginosa, e, independentemente da idade do docente, não se pode permitir que fiquem sem conhecimentos sobre o funcionamento do digital.
Principalmente na área da comunicação, é importante que os professores sejam continuamente capacitados na área do universo digital; caso contrário, correm o risco de serem substituídos, caso não queiram entrar nesta modernização.
Não só os professores, mas também todos os profissionais que actuam nesta área, podem ser substituídos, porque uma coisa que se aproxima cada vez mais são as Inteligências Artificiais, um tema abrangente, mas que não devemos desprezar ao falar de comunicação, informação e criação de conteúdos. Portanto, hoje há muitos que temem pela perda dos seus empregos, pois percebem que a Inteligência Artificial está a realizar tarefas que antes eram exclusivas do ser humano. Assim, tanto os professores quanto os profissionais desta área devem estar actualizados, fazer formações de reciclagem para se enquadrarem no contexto actual.
LM: Quais são, os principais desafios que se colocam hoje aos gestores e jornalistas no contexto da Comunicação Social Online? E que caminhos devem ser trilhados para garantir uma presença sólida e credível no panorama digital?
SJ: Temos que olhar mais na credibilidade. Enquanto fazedores de informação, este deve ser o nosso comprometimento.
Para além da credibilidade, deve-se ver naquilo que educa, informa realmente e entreter de forma positiva. Este deve ser o nosso foco e não podemos nos abalar por causa das novas tecnologias, mas temos que olhar como aliados do nosso trabalho, temos que tê-las como parceiras nos nossos afazeres. Logo, os desafios são estes: olhar na credibilidade, olhar no que é entretenimento de facto, olhar no que é informação realmente e na questão de educar de facto.
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