VENDA ILEGAL DE MEDICAMENTOS NOS MERCADOS INFORMAIS
A escassez de oportunidades de emprego no sector da saúde tem sido apontada como um dos principais factores que levam profissionais formados e cidadãos em geral a praticarem a venda ilegal de medicamentos nos mercados informais, colocando em risco a saúde pública.

Segundo o técnico médio de farmácia, Novais, a actividade ambulante surge como consequência do desemprego.
«Sou formado nesta área da saúde, mas estou no mercado informal porque não há emprego. Então, vendo os meus fármacos no mercado informal. Além disso, há muita procura, e vendemos a um preço mais baixo do que nas farmácias. Às vezes, o que lá custa 2 mil kwanzas, nós vendemos a 1000 ou 1500 kwanzas. É também uma forma de ajudar as pessoas», explicou.
Apesar de reconhecer que a venda de fármacos a céu aberto constitui uma actividade ilegal, Novais confessou que, por vezes, têm de se esconder para evitar a detenção por parte das autoridades, operando em horários estratégicos para escapar à fiscalização.
Os vendedores revelaram que, quando são apanhados pela polícia, pagam multas que variam entre 200 e 100 mil kwanzas. Em alguns casos, as penalizações podem ser reduzidas mediante negociação com os agentes.
Apesar de admitirem que surgem, ocasionalmente, oportunidades de trabalho nas suas áreas de formação, queixam-se de que os salários são demasiado baixos, o que os leva a preferir continuar nas ruas.
«Temos fé que algum dia sairemos daqui para a nossa própria farmácia. Essa é a nossa luta», avançou.
Questionados sobre a origem dos medicamentos, os comerciantes disseram que os adquirem em depósitos, utilizando nomes de farmácias registadas ou documentação de amigos com autorização legal.
Paracetamol, albendazol, amoxicilina, diclofenac, analgésicos diversos e pomadas são alguns dos produtos vendidos. Garantem não comercializar medicamentos que exijam prescrição médica, apesar de a legalidade e fiabilidade dessa afirmação serem difíceis de comprovar.
Entre os medicamentos mais procurados destacam-se o diclofenac, o paracetamol, o anaflan e o ibuprofeno, considerados de primeira necessidade.
Como conselho à classe, alguns vendedores apelam aos colegas para deixarem de vender medicamentos cujo funcionamento desconhecem, pois os efeitos no organismo podem ser imprevisíveis e perigosos.
João André, que vende medicamentos informalmente há sete anos, contou que conseguiu concluir o curso de farmácia graças ao rendimento desta actividade. Ainda assim, manifesta a intenção de abandonar o comércio ambulante caso surja uma oportunidade de emprego por via de concurso público.
«Se aparecer uma oportunidade, largo isto e dou o meu melhor para ajudar a desenvolver Angola», garantiu.
Do lado da clientela, as opiniões dividem-se. Graça, um dos clientes encontrados no local, justificou a sua escolha pela conveniência.
«Às vezes, não temos tempo para correr até à farmácia. Quando vemos na rua, compramos. É o mesmo da farmácia, apesar de lá estar mais bem conservado», disse.
Já Dona Mariquinha mostrou-se preocupada com os riscos à saúde pública e defendeu um debate mais frequente sobre o assunto.
«É um perigo. Como conseguem estes vendedores adquirir os medicamentos? As pessoas deviam deixar de comprar nas praças e ir às farmácias. Lá está tudo bem guardado e conservado», alertou.
Teresa Anabela, estudante de enfermagem, e Anacleta Pedro, estudante de farmácia, também reprovaram a prática. Ambas referiram o mau estado de conservação dos medicamentos e os perigos associados ao consumo de fármacos com prazo de validade expirado ou expostos a temperaturas inadequadas.
«Na farmácia pode ser um pouco mais caro, mas a saúde está em primeiro lugar», concluiu Anacleta.
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